Que conversa estranha…

Ariana se sentou, como sempre, em sou local de trabalho, pronta para enfrentar mais um dia. E, como sempre, a senhora, dona Suzana, veio cumprimentá-la. Mesmo que dissessem a ela que não deveria conversar com essa moça, que era doida e coisas assim, ela não se importava. Imaginava que ela deveria estar passando por algum momento ruim da vida, e por isso se escondia atrás daquelas fantasias. Pobre Ariana, não sabia mais diferenciar a realidade da ficção. Tinha posto na cabeça de que era uma alienígena, como os homenzinhos de Marte Ataca, e que em breve sua nave seria consertada e iria embora dali. Essa era a sua loucura.

Por insistir nisso, as pessoas se afastaram, menos dona Suzana, que apenas sentia uma curiosidade generosa. Achava que se a “menina” conversasse o suficiente, se alguém se tornasse seu amigo, ela iria acabar melhor. E fez desse seu objetivo pessoal: ser amiga da moça. E ia bem nisso. Todos os dias conversavam, e independente de quão esquisitos fossem os temas, Suzana ouvia e sorria. Perguntava também da casa, da comida, como estava, e recebia as respostas e perguntas semelhantes eram feitas a ela.

Ariana sentia um carinho especial pela senhora. Ao longo da sua convivência, descobria que ela acabou ficando viúva  e sozinha, e trabalhar era seu passatempo, não pelo dinheiro, mas pelas companhias. Sabia que a outra achava que ela era doida, mas ainda assim falava sobre tudo o que queria. Era bom ter com quem falar e que a levasse quase a sério.

-Bom dia, filha, como você está?

-Bom dia, dona Suzana. Melhor, bem melhor. Em breve irei embora. Talvez hoje.

-Vai viajar?

-Voltarei para casa. Sabe, a história pela qual eu ganhei esse monte de bonequinhos pra minha mesa. – E apontou para os mais diversos “aliens” que decoravam sua estação de trabalho, que os colegas colocaram ali para fazer chacota mas pelos quais ela se apegara.

-Ora, minha jovem, era só você deixar essas bobagens de lado. Você poderia procurar ajuda profissional… – dizia a senhora, com um ar preocupado no rosto. Será que ela iria se matar? Sair sem rumo por aí?

-Não é bobagem querer voltar pra casa, dona Suzana. Estou com saudades. – E olhou para um dos bonequinhos com tristeza e carinho, sorrindo.

-Ora, já chega dessas coisas, menina. Pode me contar a verdade. Onde seus pais moram? Onde qualquer outro parente seu mora?

-Não tenho família a um longo tempo, dona Suzana. Só quero rever o local em que cresci para poder voltar a viajar. Sabe como é, né, voltar ao bairro, dar uma olhada e por o pé na estrada de novo.

“Progresso!” Pensava Suzana. “Ela só quer ir a um certo bairro. Pobrezinha, sem família! Mas ao menos sabe pra onde quer voltar. Essa bobagem de alienígena deve ser só uma forma de defesa.” E sorriu.

-Bem, minha jovem, faça como quiser. – Segurou as mãos jovens entre as suas e as apertou levemente. – Mas lembre-se de que eu sou, de verdade, sua amiga. Eu quero o seu bem.

-Quer vir comigo? – Disse Ariana, num lapso de energia incomum nela.

-Ah, minha querida, não aguento mais. Minha idade não permite. O serviço aqui é leve, mas viajar é complicado… As malas, os pesos…

-Então, se as coisas fossem facilitadas você viria?

-Ora, não seja boba. Já deu a hora, vamos trabalhar. – E deu um beijo na bochecha da moça para então voltar ao seu local de trabalho.

E assim o dia transcorreu até o fim. Suzana notou que a moça tinha ficado até depois dela sair. Alguém disse que ela estava em busca de uma grande caixa que ninguém conseguiu informar para que.

No dia seguinte ela não apareceu. Nem no outro. Ficou sabendo que ela havia pedido demissão e enviado o dinheiro da rescisão para cada pessoa que deixou um bonequinho para ela. Ela não havia recebido nada, nem um cartão de despedida. Pelo jeito a moça estava sem nenhum centavo no bolso. Deve ter pirado de vez, coitada!

Chegando em sua casa, dona Suzana preparava um café enquanto pensava na moça. Chovia muito, e ela imaginava a jovem tomando chuva, abraçada num monte de bonequinhos, quando sua campainha tocou. Imaginou que fosse a polícia ou algo assim, mas, para sua surpresa, era Ariana. Estava encharcada, mas com um sorriso de orelha a orelha, e foi entrando sem permissão.

-Hmm, café… – Disse Ariana enquanto servia duas xícaras.

-Menina! Como você some assim sem me avisar? Estava preocupada! Obrigada. – Pegou o café que lhe era oferecido e sorveu devagar, contente por ver sua amiga tão animada.

-Mas dona Suzana, eu avisei que ia embora! Só passei aqui pra te buscar. Arrumei um quarto bem bonito para a senhora, com um banheiro bem bonito. Fiz questão de instalar uma janela nova, aliás o pessoal gostou do meu presente de despedida? – Disse num jorro.

Suzana ficou olhando para ela pensativamente, ponderando se a pobrezinha tinha pirado de vez. Tão novinha!

-Sim, sim, gostaram muito! E como assim me buscar, filha, eu moro aqui.

-Não mais. Agora a senhora irá viajar comigo. E nem adianta retrucar, que a senhora já me disse que é sozinha. Anda, termina seu café e deixe aí essa xícara.

“Ela enlouqueceu mesmo”, pensou, quando punha a xícara em cima da mesa.

-Você vai me levar pra onde, filha? Eu estou velha, já disse, não consigo mais ir muito longe. Viagens me cansam.

-Dessa você não vai se cansar, eu garanto. – Disse a moça, e sorriu. Deu uma coçada nos olhos que fizeram um par de lentes de contato caírem, mostrando olhos estranhos, com pupilas grandes, mas ainda assim gentis. Era o olhar esquisito de sempre. – Ops. Ah, já foi. – Disse, em tom de desculpas, ao notar o espanto da senhora. – E lá vamos nós! – disse, quando apertou o botão em seu celular.

Agora estavam em um novo ambiente. Uma grande cama aconchegante, com uma janela imensa mostrando um planeta azul ao fundo de estrelas. A senhora caminhou até ela, batendo de leve no vidro, meio incrédula. Na borda da janela, estava alinhada a coleção de aliens.

-Achei que você era maluquinha.

-Eu sou maluquinha. Olha onde eu acabei, e fazendo o que para poder consertar minha nave. Mas ao menos agora eu tenho companhia. Essa minha casa é muito silenciosa. Já que a senhora me deixou entrar na sua, fique a vontade para olhar a minha.

Dona Suzana se virou pra ver se ela ia se transformar numa criaturunha verde, mas a única mudança que viu foi o cabelo da moça, que se tornava mais longo e mais escuro. Não conseguiu evitar um sorriso.

-Achei que os marcianos seriam mais feios.

-Não sou marciana, dona Suzana. Sou ariana. Venha comigo, vou te mostrar o meu bairro.

—————————x————————-

Semanas depois, Suzana volta à sua velha rotina. Foi um coma de um mês, um milagre ela ter sobrevivido. Tinha imaginado a história inteira, lhe disseram. Mas o colar que ganhara na viagem estava na porta da sua casa assim que ela chegou, e as lentes de contato, agora estilhaçada por pés indelicados, guardadas numa caixinha. Agora, aguardava ansiosamente a nova visita, e toda noite ia ao quintal, olhar as estrelas e lembrar do que não aconteceu.

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