Atropelada

A verdade lhe atingia como um soco, enquanto suas milhares de memórias passavam e repassavam em sua mente. Pessoas, coisas, animais, tudo tinha a mesma importância, sempre tivera. Mas não naquele momento. Queria ver o rosto querido que estava longe, do qual não poderia se despedir. Queria olhar a chuva que caía, apesar das pessoas estarem se juntando a sua volta.
Dava um sorriso suave, apesar do sangue lhe descer aos borbotões pela boca e pelo braço que não mais existia. Estava em uma espécie de êxtase, onde a dor tinha sumido, e todo o tempo se arrastava em câmera lenta, o que a deixava notar cada detalhe dos rostos, dos olhos, dos cheiros.
A ambulância chegava gritando, e logo muitas pessoas competentes a agarravam, tocava, e remexiam, mas aquela parecia uma cena de sonho. Agora, deitada e presa, só conseguia sorrir e afirmar para a moça que parecia em desespero ali, remexendo em frascos e seringas e a espetando mais e mais que estava tudo bem. Engraçado, ela é que estava calma e a médica tensa. E sorria com o pensamento, enquanto a perda de sangue fazia sua consciência escorregar para um sonho-lembrança, onde a imagem de seu atropelamento voltava. O carro grande. Sinal verde para pedestres. Três passos. Uma batida que a arremessou longe de seu braço esquerdo. As pessoas. O motorista com a frente suja de seu sangue fugindo. Pessoas atordoadas olhando.
Os olhos se fechavam sozinhos, enquanto a moça desesperada ainda tentava fazer algo mais. Queria se desculpar com ela, mas seu cansaço superava tal ato. E o mundo se apagava. Despertava em meio a palavras estranhas em seus ouvidos, distantes apesar das pessoas que as pronunciassem estivessem bem ao seu lado. Alguém notava a sua tentativa de abrir os olhos de novo, e outro alguém colocava algo a mais no soro. Um ‘vai ficar tudo bem’ foi compreendido antes do mundo se apagar novamente. Mas ia mesmo ficar tudo bem. Afinal, aquela luz se aproximava mais e mais, e ela era suave… dava vontade de se aproximar.
Mas era acordada de novo. Mais palavras estranhas proferidas enquanto alguém cheio de sangue parecia fazer algo muito complexo. Não notaram os olhos semi-abertos apreciando o braço ser remendado de volta no lugar. Era algo estranho. Por um momento, ela se sentiu uma boneca de pano sendo arrumada, e com esse pensamento dormiu outra vez. E a luz voltava. Formas estranhas se tornavam um rosto, um rosto que lhe sorria suavemente. Abria os braços e lhe dava um abraço. Era um sentimento familiar, mas não reconhecia o jovem a lhe abraçar, mas retribuiu o abraço, e o apertando um pouco, sentiu que ele sumia, enquanto sua consciência retornava para onde deveria estar.
E via sua família ao redor da cama, olhos inchados de chorar e velar. Tinha ficado mais de um mês em coma, diziam, acharam que não ia mais acordar. E em meio às lágrimas e sorrisos ela saiu do quarto e, algum tempo depois, voltou pra casa. Sua vida tinha voltado ao normal, a fisioterapia lhe devolvera parte dos movimentos do braço arrancado, e aquele que a tinha atropelado tinha sido pego e pago uma indenização, depois de ver o estrago que tinha feito em alguém.
E olhando, por olhar, as fotos de família, ela nota um bebê no colo da sua mãe, mais jovem. O pequeno sorria para a foto, e um calor aqueceu seu coração. Foi perguntar a mãe quem era a criança, e a resposta foi a de ser um irmão morto. A imagem tinha ficado fixa, até que ela se lembrou do ser que tinha visto na luz, crescido.
E olhando para a foto, tentando evitar de molhá-la, retirou do álbum e a pôs em um quadro, perto da cabeceira da cama. E toda noite dava boa noite ao irmão, dizendo que a aguardasse mais, e dormia. E ele lhe aparecia ao lado, lhe dando um beijo de boa noite, e sorrindo, concordava com a cabeça. Iria demorar para dizer oi a ela de novo, mas não fazia mal. Cuidaria dela e de todos até o dia de se verem de novo.

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