Ponto de vista

As horas se arrastavam. Milhares de coisas vinham à mente, e nenhuma delas fazia sentido. Como em um passe de mágica, toda a lógica de sua vida desmoronava e milhares de locais e coisas já não faziam mais sentido. Alguém havia embaralhado todas as páginas de sua vida, e por mais que tentasse reorganizá-las, não tinha sucesso.

Como, em um espaço de tempo tão curto, tinham conseguido acabar assim com uma vida inteira? Não sabia filosofar, e também não se perdia em linhas de pensamentos. Não conseguia nem sequer construir uma para poder se perder nela. Apenas lembranças esporádicas como a de alguém lhe sorrindo, um fragmento de cidade, um cheiro bom de flores, seguido de várias buzinas e gritos. Folhas soltas ao vento se mesclavam ao por do sol, assim como as nuvens de uma cidade entravam junto com ele numa cafeteria, se servindo de um prato com cheiro de chocolate.

Uma voz. Seria de alguém que conhecia? De alguém que estava por ali? De alguém que ainda estaria? Apenas um fragmento de imaginação? Nenhuma resposta e vista. Uma segunda voz era acompanhada pela primeira e uma terceira pelas outras. Mas ainda estava muito e muito confuso para ser algo que pudesse ser lembrado.

Sentia um formigamento no braço. Mas não se lembrava que era um formigamento, nem onde nem o que era o braço. E as coisas ficavam ainda mais confusas, mais complexas. Uma ou outra coisa parecia ficar coerente agora. Alguém querido estava abraçando. Calor de mãos suaves afagando seus cabelos. Suas mãos crescendo junto com o seu corpo. Sua visão mudando. Mais pessoas conhecidas. Aprendizado. Uma escola, muitos colegas, a descoberta da vida adolescente, as espinhas, as notas, preocupações corriqueiras. Um amor, bronca dos pais. Lembrança de uma noite diferente, sensações. A carreira, o gosto pela aventura. Podia ser o que quisesse, mas tinha tomado gosto por adrenalina, e a procurava da forma mais pura. A entrada para o exército, a satisfação de poder correr, gritar e matar. Sim, tinha sido ensinado a matar.

Alguma coerência.

Lembrava bem de seu corpo, cada parte dele. Lembrava de como mexer ele. Começando com os pés, as mãos. Tentando mexer as pernas e os braços. Sim, tudo estava parecendo estar no lugar. Abrir os olhos. Olhar. Uma grande sala branca com equipamentos. Teria se acidentado? Algumas pessoas chegaram correndo, alguém mais falou algo e ficou feliz. Uma seringa com algo dentro. Inconsciência.

Acordava de novo. Sala de hospital. Equipamentos de hospital. Mais pessoas. Chamar a enfermeira que vinha checar como estava e lhe pedir alguma informação. Acidente de carro. Os amigos tinham morrido, o culpado fugiu. Mas estava bem. Era órfão, então ninguém se responsabilizava por sua estada ali. Mas tinha um plano de saúde, não era necessário se preocupar. Em breve poderia voltar para suas atividades no exército. Em sorriso, descanso. Agora estava tudo fazendo sentido. Dormiu, pronto para voltar ao seu posto de espião.

***

Não muito longe dali, uma equipe de pessoas de jaleco branco comemorava. Anos de pesquisa e tentativas falhas encobertas cuidadosamente pelo governo estava dando frutos. O projeto de criação de andróides humanos estava quase concluída. O teste final estava perto, mas até lá iriam avaliar bem as respostas daquele primeiro protótipo. Caso ele desse certo, o controle sutil dos humanos por intermédio dessas máquinas iria começar.

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