Desventuras – Parte II

Sara tinha subido ali de novo para ver o universo em toda a sua glória. Amava cada partícula de pó, cada raio, cada uma das coisas existentes. Poderia ficar ali dias olhando e olhando, mas isso levantava desconfianças, e também, como da última vez, algum engraçadinho poderia tentar algo com ela. Não que fosse conseguir de verdade, já que tinha seus próprios meios de defesa, mas era incômodo. Apenas divagar sobre o que acontecia e o que poderia acontecer já a entretinha o suficiente.
Hoje, por sorte, tinha um espetáculo a parte com aqueles cinco aprendizes de mago, apesar de não os olhar diretamente. Não achava que devia olhar para eles como todos os olhavam – bichos estranhos que deviam ser exterminados, ou seres curiosos para olhar como em um zoológico -, mas sim com algum respeito, se não fosse pelas suas vitórias, pelo menos por seus esforços. Não tinha prestado atenção no livro, e agora, nesse exato momento, sua mente estava fixa em um aglomerado de estrelas inalcançável, e ela sorria.

***

As riscas no chão, feitos com giz vermelho, eram meticulosamente medidas, o círculo usando um compasso gigante para sair perfeito. O esquema era rápido, e incrivelmente silencioso. Só paravam para checar o que o livro mandava fazer, ou onde por as velas diferenciais. O básico era o mesmo para todos os livros existentes, provavelmente copiados de algum mais importante. Em pouco tempo, tudo estava pronto. Eles então acendiam uma vela bem no centro do círculo, e sistematicamente iam acendendo as outras. As frases em latim, já decoradas e treinadas, saíam em um belo ritmo, parecendo mais uma canção. E a lua ajudava a elevar os ânimos.

De repente, uma brisa morna começava a soprar, carregando folhas para a chama tênue das velas, mas elas é quem pegavam fogo. O vento aumentava, e eles pareciam não sentir. E nem a que estava de fora, agora com os olhos bem cravados neles, examinando o título do livro.

***

“Que coisa… – pensava Sara, o semblante sempre calmo assumindo um tom de gravidade que realmente não ficava bem ali – Realmente acharam um verdadeiro, mas nem sabem o que estão fazendo… Espero que não dê certo.”

Terminava o pensamento enquanto suspirava, passando os olhos pelos integrantes ali que pareciam em transe, largados às palavras e a caminhada-dança, admirando pacificamente o desenho no chão ser lentamente preenchido por uma luz suave, que em pouco tempo se tornava trevas, abrindo um buraco por onde uma mão grande e medonha se colocava para fora.

***

Estavam conseguindo, e sabiam disso. Nunca, em toda a vida, tinham realmente conseguido algo como aquilo. As palavras esquecidas ardiam com um fulgor de fogo vivo enquanto a luz irradiava dali. Mas algo parecia errado, aquelas trevas não eram para estar ali. Mas uma curiosidade pungente os impulsionava a ver até onde ia aquilo, o que ia acontecer de verdade.

A mão os assustou. Não era isso que esperavam. Carlos parou de imediato, seguido quase imediatamente pelos outros quatro. Definitivamente, aquilo não era uma criatura de proteção. Estava mais para guerra. Melissa tinha recuado alguns passos na direção da trilha, instintivamente. O rochedo era estreito, não conseguiria sustentar o peso da imensa criatura que forçava caminho pelo minúsculo orifício que lhe servia de passagem, agora já quase todo para fora enquanto os jovens magos recuavam mais um pouco. A criatura de pele grossa escamada, recoberta por outra pele ainda mais grossa, de olhos negros e duros, narinas enormes e uma boca que não conseguia esconder dois dentes que lhe escapavam pelos cantos tinha se sentado no chão. Nessa posição, era quase da altura deles em pé. Era fácil notar a confusão e o espanto no olhar deles, principalmente de Ágatha. O impulso geral era correr, mas seus pés pareciam presos no chão quando aquilo falou:

_Quem eu devo matar, mestres?

Confusão. Matar? Não, não era para isso que tinha sido invocado. Mas então, para que? A resposta não existia, e tudo o que eles conseguiam fazer era ficar encarando a fera, que depois de repetir um ou duas vezes a pergunta já tinha perdido a paciência, até que avista a garota de cabelos negros na ponta do penhasco, olhando.

_Entendi. Vão matar aquela moça. Farei meu trabalho e depois vou embora.

Uma manifestação retardada chegava aos olhos de Rebeca, mas já era tarde para tentarem parar o ser. Ele corria como um trem em direção de Sara, seguro da vitória fácil e de seu prêmio por ela.

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