Desventuras – parte I

Tinham subido o morro de novo. Era algo quase automático para eles, ir àquela pedra saliente no meio do nada, numa trilha a noite. Muitos achavam que eles faziam algum tipo de orgia ou usavam drogas, mas era outra coisa, mais condenável aos olhos alheios do que isso: magia. Ao menos era o que os livros e revistas falavam, ensinavam, passo a passo. Mas nada do que faziam era realmente verdadeiro. Livros novos e informações da internet só forneciam meias verdades e símbolos errados. Mas continuavam, juntando dinheiro para comprar livros mais antigos, se esforçando para fazer traduções.

E estavam quase lá. Cansados e suados, nas suas roupas rituais, carregando todo o aparato necessário, quando a viram. A jovem de cabelos negros cacheados, vestida com seu conjunto bem-conhecido de jeans e regata preta, com seus chinelos ao lado do corpo, sentada, na beira do penhasco olhando o céu, de costas para eles. Parecia nem respirar enquanto o fazia, e não tinha percebido os cinco que chegavam ali e a observavam com curiosidade.

Aquela garota era reservada, quase não falava com as pessoas da vizinhança desde que tinha se mudado a cinco anos, e todos tinham quase certeza de que era louca. Mas ninguém sabia de verdade. Seu passado era um mistério tão grande quanto o que fazia para conseguir dinheiro, e do que se alimentava. Sempre carregava sua mochila, na qual levava tudo o que precisava. Não se ouvia rádio ou televisão na sua casa, e tinha uma estranha mania de sumir e reaparecer quando lhe desse na telha. Mas agora ela não estava com a mochila, e eles não queriam ser perturbados. E ela não era considerada um estorvo.

Rebeca foi a primeira a se aproximar dela, suavemente, apesar dos olhos negros da moça não parecerem enxergar nada, nem mesmo o verde dos olhos da ruiva, que só após dar algumas sacudidas suaves nela que obtiveram resposta:

_Errmmm…. Ei… Sara… SARA!! Nós, errm… vamos nos reunir aqui e… fazer, erm… algumas coisas, tudo bem? Não precisa se assustar… nós, erm… bem, é só não tentar se meter e fazer perguntas…

Ela sorriu suavemente para a ruiva, olhando também para os outros quatro, mas sem parecer se incomodar, apesar das capas negras com forro vermelho, a sacola de velas e giz e algumas pedras coloridas no pescoço deles.

_Fiquem a vontade. É uma pedra pública. -Falou, dando de ombros- Apenas lembrem de apagar o que escreverem nela, senão algum retardado pode tentar invocar o demônio matando alguém aqui ou algo do tipo. Tem pessoas muito idiotas nesse mundo, não se esqueçam disso…

E se calou, os deixando boquiabertos, enquanto voltava a olhar para o céu, como se hipnotizada. Aquele era um conselho razoável, mas realmente inesperado de alguém como ela. Se é que se espera algo de alguém assim. Lukas então abriu a página marcada do livro antigo que tinha sido comprado recentemente, e que seria testado ali, enquanto comentava com Agatha em voz alta, como se tivesse tomado alguma bronca de alguém importante:

_Tata… como vamos apagar isso depois… ela tem uma certa razão… Lembra daquele pessoal da igreja…

_Tá, tá, calma, Luk, eu apago depois, nem que seja com a minha roupa. Também não quero ser culpada por um idiota querer matar pessoas com a desculpa de fazer invocações. – E sorriu, com os olhos cheios de esperança – Tomara que dê certo dessa vez…

_Vai dar sim, tenho certeza! – Respondeu Carlos sem pensar muito. Era um entusiasta da magia, e tinha deixado seu cabelo castanho claro crescer à moda do século XVII, e com a capa parecia um cavalheiro ou algo do gênero. – Esse, sem dúvida, é um exemplar original que possui coisas verdadeiras!

_Foi o que você disse da última vez… – Retrucava Melissa, fazendo cara de poucos amigos, enquanto posicionava algumas velas em locais marcados. Era a menos crente do grupo, mas sua curiosidade a motivava a ficar pra ver, esperando que algo estranho acontecesse, como já tinha acontecido uma vez ou outra.

_Já chega, parem de discutir… vamos começar logo. A invocação de uma criatura que protege – Começava Beca, olhando o livro e pronunciando as palavras em latim baixo, fazendo os outros repetirem. Tinham esquecido a garota que olhava para o céu.

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