O Salto

Enquanto caía, empurrada pelo peso de mil luas,  ela sorria. Sorria da forma mais triste e doce que alguém pode sorrir, deixando no ar um pedido de desculpas. Ao se atirar no abismo, a sensação do vento batendo no rosto enquanto as lágrimas eram secas e se perdiam em pequenos diamantes, ela apenas sentia a felicidade imensa.

Era palpável como os grilhões de uma vida inteira se desfazem facilmente, sem nenhum problema, quando se lança de corpo aberto para a morte iminente. Ah, que alívio! Nunca mais teria problemas, nunca mais iria ser perturbada, nunca mais seria esquecida nem deixada de lado. Seria apenas um problema enquanto fossem procurar seu corpo, ou mesmo enterra-la. Mas já havia se preparado de longa data para esse evento. Não deixaria culpas para ninguém, afinal, essa decisão era sua e só sua. Não deixaria mágoas, tinha sido muito gentil com todos, como sempre. Não levaria rancor, decidira que aquilo não era necessário. Só não agüentava mais viver, pura e simplesmente. Viver, por assim dizer, era algo podre e doentio, que os outros insistem em fazer. Mas essa era apenas sua opinião própria, sua forma de ver o mundo. Não precisava que outras pessoas soubessem disso.

As pedras se aproximavam rápido enquanto abria os braços. Como era bom sentir o ar! Senti-lo tentando, de uma maneira bastante inútil, a colocar de volta no alto das pedras. Mas já estava perto demais para algo conseguir move-la de alguma forma. Apenas fechou os olhos e sorriu feliz por ter feito seu último ato de coragem.

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