A chama

No meio das sombras, a pequena chama da vela era algo estranhamente chamativo. O silêncio era geral. Já eram duas horas da manhã, a vila pacata dormia. Estivera assistindo televisão quando tudo virou trevas e silêncio. Mas a chama pequena e vívida da vela que estava no fundo de um prato de vidro trouxe de volta parte da luz.
Tédio, falta de sono, sem mais o que fazer. O olhar ficara fixo na pequena chama que tremulava suavemente, se balançando, dançando com um vento que era sutil demais para ser percebido pela pele. Olhar aquilo fazia a imaginação viajar.
De repente, a chama gerava um pequeno mundo, que era observado com curiosidade por seus olhos. Algumas pessoas caminhavam, e campinas escondiam pequenas casas. Pessoas iam e vinham, ora colhendo, ora entrando nas casas, ora se sentando. Era um mundo curioso. Então parou e piscou algumas vezes para dissipar a visão. Talvez estivesse mesmo na hora de dormir, pois achava que tinha visto alguns deles acenando para si. Mas aquilo seria ridiculamente impossível. Coçou os olhos com as duas mãos, suspirando, enquanto pegava a vela e a levava para o quarto. Detestava admitir, mas tinha pavor do escuro. Deitava então em sua cama e colocava a fonte de luz na mesinha próxima e, sem querer, seus olhos voltaram a fitar a chama. Agora via um riozinho, pessoinhas que levavam algo que julgava como gado para pastar, alguém lavando roupa. Um outro mundo que transcorria suavemente com o passar do tempo sem ter a plena consciência de ser observado por alguém. Sorriu. Seria divertido imaginar que aquelas pessoas realmente existissem ali, mesmo que suas vidas fossem breves como a chama que tremeluzia e atiçava sua imaginação agora. Mesmo tendo a consciência de que era apenas sua imaginação em ação ali, desejou que todas as pessoas daquele estranho lugar que via fossem felizes.
Continuou assistindo ao pacífico trabalho deles até cair no sono, guardando na memória o que podia. Quando acordou novamente, sorriu de surpresa e felicidade enquanto olhava para a cera que sobrara no prato. Tinha a forma de pequenas campinas, e as cinzas pontilhadas pareciam plantas. Bem, que se danasse sua sanidade, ou o que pensariam se vissem a sua atitude. Guardou os restos de seu mundo mágico a salvo, como um tesouro, para o resto de sua vida, fingindo não notar as suaves diferenças que ele apresentava.
Em algum lugar de sua mente, bem afastado da sensatez e da razão, tinha a estranha certeza de que eles ainda viviam ali.

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