O Velho

Ele olhava ansioso para o mar.
Era um velho meio estranho, mas era pacífico. Em breve estaria no barco, a caminho de um lugar muito distante. Olhava para as pessoas que se aprontavam também para a viagem que se seguiria. O barco não era dos melhores, mas iria comportar todos eles ali dentro. Todos aqueles rostos e nomes que ficaram conhecidos, e que em breve não veria mais.
Mas bem, era hora de partir.
Terminava de ajeitar suas coisas num enorme baú, e então caminhava. Mais e mais pessoas conhecidas. Havia dividido tantas coisas com elas, tantos momentos… As lembranças o corroíam por dentro enquanto aceitava de bom grado a ajuda para levar suas coisas para dentro da nau.
Seus olhos estavam se enchendo de lágrimas. Tantas pessoas, tantas coisas… Queria tanto poder ficar mais tempo com eles, lhes contar toda a sua vida, todas as coisas que tinha visto… E não devia. O coração lhe apertava no peito. Uma garotinha subia correndo ao navio e lhe entregava uma flor, e ele a abraçava apertado, tentando sorrir.
Um sinal. Pessoas gritando. Hora de ir.
Sim, hora de ir. Suspirava meio pesaroso. Ele guardava então a flor da pequena delicadamente em seu bolso, tomando cuidado para não amassá-la, e caminhava, relutante, para dentro do barco. As velas estavam hasteadas e os tripulantes fizeram o que ele tinha pedido para fazer. Coisas de velho, falavam, lhes dando esses pequenos mimos. Ele era gentil, e sabia muitas coisas. Os tinha ajudado muito, não custava nada lhe satisfazer algumas vezes.
Em sua cabine, o senhor terminava de arrumar tudo. Estava arrependido, triste, infeliz. Como queria ficar! Não, hora errada para pensar nisso. Não havia mais volta. Agora não.
Nuvens se formando. Assomavam-se no horizonte como uma imensa coluna de algum tipo de parede intransponível. E era para lá que rumavam, assim como ela rumava na direção do barco. Não demorou muito, os ventos se encresparam, e ondas enormes começaram a surgir e se assomar contra a embarcação, que nada mais parecia que um ponto no oceano, largado ao capricho de algum deus cruel que os usava para se divertir.
O convés estava cheio. A água invadia o porão e as pessoas subiam, tentando ver como estava tudo ou buscavam proteção em suas preces e companheiros. As lágrimas dos que estavam ali eram lavadas pela chuva e pelas ondas. Alguém cantava uma canção, que em pouco tempo virou um coro.
E o velho olhava a tudo. Tinha subido ao convés para ver se poderia fazer algo. Sabia que não poderia, mas mesmo assim tinha ido. Olhava o desespero nos olhos de todos que se acercavam dele, e sentia um imenso pesar. Não queria ter visto aquilo, então fechou os olhos, e não viu quando o raio atingiu o mastro principal, que caiu sobre o convés em chamas, ateando fogo à madeira do assoalho. Só abriu os olhos ao sentir o baque, o chão de madeira tremendo, e começou, trôpego, a voltar a sua cabine. A chuva e as lágrimas lhe turvavam a visão, e sentia que o barco se inclinava.
Enxugando os olhos como podia, ele dava um último adeus silencioso a todos os ocupantes ali, apertando a mão no bolso da flor, mas ela já tinha sido carregada pelo vento. Melhor assim, pesava. Então, calmamente, ele repetia tudo o que tinha feito antes.
O raio tinha carregado completamente as baterias.
Era hora de voltar para casa.

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