O Sonho

Gosto de pó. De pó velho amontoado pelas eras, o cheiro de coisas que apodreceram há muito tempo, de coisas que jamais voltariam.

Irreversibilidade.

Essa palavra reverberava de modo repetitivo, parecendo uma mantra em sua cabeça, que agora latejava. O que iria fazer? Para onde iria? Sede. Água. Seria mesmo água? Não parecia. Melhor não pegar.

Tristeza.

O peso de um milhão de vidas lhe recaía sobre os ombros, a pressão de todos os que tinha deixado, de todos os que não veria mais. Se sentiu só. Tão só quanto um náufrago na certeza de que caiu em uma ilha desabitada, longe de tudo e de todos, e que ninguém mais o encontraria, e tudo porque tinha resolvido brincar de pirata por mares desconhecidos.

O silêncio oprimia. Sentia seus ouvidos zunindo, buscando qualquer coisa que não fosse as batidas de seu próprio coração para ouvir. Nada. Nem vento, nem pedras, nem uma respiração.  Se ouviu dar um suspiro e imaginou ter ouvido alguém. Ninguém.

No fundo de sua mente, uma voz irritante martelava mais e mais todos os riscos inúteis que tinha corrido, todas as coisas que tinha deixado para trás. Agora estava ele ali, sozinho, se agachando lentamente junto a parede que o escorava, enquanto, sem notar, algumas lágrimas desciam de seu rosto lentamente. Abraçou as pernas. Para que tinha feito aquilo afinal? Por fama? Para provar que estava certo? Para mostrar como tudo o que tinha feito a vida inteira era verdade? Para quê?

O sol começava a nascer. O horizonte se tingia de um vermelho-sangue enquanto as construções ganhavam forma. Ele não via nada. Prédios destruídos se misturavam a algumas construções diferentes, que pareciam ser de vidro e resplandeciam ao sol, como imensos diamantes onde alguém poderia morar. Ele soluçava, não via nada disso. Alguém apontava para ele dali, uma criança, talvez, fazendo sinal para que saísse dali. Ele pensava na comida do restaurante perto de sua casa e de como era gostosa, e como nunca mais provaria nada disso. Algo focava uma luz cegante sobre ele, e mais “pessoas” vinham às janelas olhar. Ele se encolhia mais, sentindo o calor do sol e só agora se dando conta que amanheceu. Levantava o rosto e olhava, fazendo sombra com uma mão, boquiaberto. Algo parecia começar fazer sentido. O calor estava ficando mais intenso. Ele notou que estava no foco como uma formiga sob uma lupa, e começou a correr. Todos os que estavam lá dentro apenas olhavam, impassíveis. Mirando?

Um flash, o calor escaldante. Susto, coração disparado, mas em lugar seguro. Saía debaixo das cobertas e ia para o banheiro, lavar o rosto. Um sonho? Não, estava mais para pesadelo. Voltava a dormir, pensando em cancelar a demonstração que faria de sua máquina do tempo no dia seguinte. Sonhos como esse não são bons presságios, pensava.

E voltou a dormir, sem notar o grande buraco na parte de trás de seu pijama novo, que parecia ter sido queimado.

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3 comentários sobre “O Sonho

  1. Bão! hehehe
    Qualquer loop no tempo não parece obedecer a lógica, por mais que nos esforcemos em imaginar isso… talvez essa seja a parte mais interessante do tema.
    E os sonhos… fique sempre alerta com eles. =P

  2. – Simplemente Perfeito, queria ressaltar a leveza e sentimento de melancolia que esse texto me passou. Me senti como se fosse o próprio protagonista. É fascinante.

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